Entrevista - Luis Lourenço / Quinta dos Roques

A Quinta dos Roques é um dos nomes maiores do Dão. Um nome que ajudou a região a voltar a estar entre as escolhas dos consumidores, que ajudou a reanimar uma região durante muitos anos moribunda.
É Luis Lourenço quem está à frente deste projecto familiar. De extrema simpatia, muito afável e de forte personalidade, aceitou prontamente ser entrevistado para este blog. Deixo aqui o seu projecto, as suas ideias e opiniões.
É a segunda entrevista do blog e desde já agradeço a Luis Lourenço a sua disponibilidade para responder a estas perguntas.






Depois da fase atribulada que o Dão passou nos anos 80 e 90, a Quinta dos Roques foi uma das principais alavancas para a retoma da região. Conte-nos um bocado da sua história e como foi o arranque do seu projecto.
A história da Quinta dos Roques é uma história como tantas outras no Dão: uma família com algumas parcelas, uma agricultura “multi-produto” e que a certa altura se confronta com a necessidade de tornar viável a sua exploração.
Tendo-se decidido pela produção de vinho, o primeiro passo, em 1978, foi o de plantar vinhas segundo as mais modernas técnicas mas mantendo um encepamento com base exclusivamente nas castas tradicionais – Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro e Tinta Roriz às quais juntámos o tinto Cão no que diz respeito às tintas e Encruzado, Malvasia Fina, Bical e Cercial em brancas.
Em 1990 construímos a nova adega e a partir daí começámos a engarrafar os nossos vinhos.
Aproveitando os conhecimentos do mercado internacional que o meu sogro, Manuel Oliveira, tinha, apostámos desde o início fortemente na exportação, sendo que presentemente exportamos cerca de 85% da nossa produção que varia entre as 120.000 e 150.000 garrafas/ano.
Os mercados mais importantes são o Canadá, Japão, EUA, Bélgica e Portugal.
Quais são as principais características dos seus vinhos, do “seu” terroir?
Se eu quisesse caracterizar os vinhos da Quinta dos Roques numa única palavra, eu escolheria “gastronómicos”.
Como tal são complexos no aroma e na boca, elegantes, frescos e com boa estrutura mas sem serem compactos.
São mais expressivos na boca do que no aroma e com bom potencial de evolução em garrafa.Em termos de solos, as vinhas estão plantadas em terrenos predominantemente graníticos com alguns afloramentos de xisto e argila.
Qual o segredo dos seus “Encruzados”?
O segredo é muito simples: boa casta, boas uvas, bom enólogo e bom adegueiro. Depois é não desvirtuar as características da casta – frescura, boa estrutura e equilíbrio não (ab)usando da madeira por motivos unicamente folclóricos.
Penso que ainda não fez rosés nem colheitas tardias. Dado que o Dão tem boas condições naturais para este tipo de vinhos, deixo-lhe a pergunta. É opção ou ainda “não calhou”?
Na verdade, fazemos com alguma regularidade um rosé mas Espumante Natural e este é vendido para exportação na sua quase totalidade.
Em relação aos “outros” rosés, fazer já fiz, só que não gostei dos resultados!
Vou continuar a fazer ensaios e quando houver algum que me agrade logo veremos.
No tocante aos colheitas tardias, permita-me que discorde – o Dão não tem condições naturais para este tipo de vinho.
Aliás, eu costumo dizer que “o Dão tem muitas coisas nobres mas a podridão não é uma delas”…
Como é sabido, o Dão tem para os seus tintos quatro castas principais, a Touriga Nacional, o Alfrocheiro, a Tinta Roriz e o Jaen. Quase todos os vinhos são feios a partir delas. Qual a razão, para si, para que não se façam vinhos com outros encepamentos, se é que eles existem?
Efectivamente estas 4 castas são as principais mas existem outras, entre as quais se procurarmos, e se calhar não é preciso muito esforço, encontramos muita Baga também.
Eu sou dos que acreditam que o vinho é cultura, história, tradição, gastronomia e portanto penso que estas 4 castas são as que ao longo do tempo a experiência e o saber dos Homens da Terra foram seleccionando por serem as que melhor se adaptavam ao “terroir” e à gastronomia da região.
Neste momento, a Touriga Nacional é considerada a melhor casta tinta portuguesa, a que todos querem nos seus rótulos. Tem medo da sua internacionalização, dado ser um dos pontos fortes do Dão?
Não, rigorosamente nenhum!
O ponto forte do Dão não é (só) a Touriga Nacional, o ponto forte do Dão é ser o Dão!
Os seus solos, rios, montanhas, castas e o saber dos homens é que fazem a diferença. Logo quanto melhor os homens souberem harmonizar todos estes factores, melhores serão os vinhos do Dão.
Em relação à Touriga Nacional que se produz na Quinta dos Roques, seja para os vinhos de lote seja para o monovarietal, ninguém a consegue replicar; é precisamente essa a definição de “terroir”. Ninguém tem a mesma terra, as mesmas árvores, ervas, rios, relevo e clima que eu tenho…daí que quantos mais produtores fizerem Touriga Nacional (que eu por via das dúvidas decidi começar a chamar Touriga Portuguesa) melhor.
Ao contrário de outras regiões, é difícil ver um varietal de Tinta Roriz no Dão. Se é uma casta que entra em muitos lotes, porque não sozinha?
Penso que mesmo fora do Dão, em Portugal, a Tinta Roriz não aparece muitas vezes sozinha.
Acho que a Tinta Roriz foi seleccionada durante muito tempo para se obter quantidade e ainda estamos a pagar esse erro.
Não quer dizer que não apareçam, de vez em quando, alguns bons exemplares de monovarietal de Tinta Roriz mas diria que de uma maneira geral não existe regularidade suficiente em termos de qualidade para que se aposte num vinho exclusivamente de Tinta Roriz.
Acha que o Dão, apesar dos grandes vinhos que tem, e que a meu ver cada vez mais, vai-se conseguir bater com as duas grandes regiões portuguesas, Douro e Alentejo, ou vai ser sempre o eterno terceiro nas escolhas dos portugueses?
Primeiro temos de ver o que significa “bater-se”.
A realidade é que em termos de quantidades vendidas ninguém se bate com o Alentejo (à excepção dos Vinhos Verdes brancos) daí que para se dizer que o Douro é 2º e o Dão é 3º se tenha de contextualizar…
Se “bater-se” tem a ver com o “estar in”, o ser badalado, aí o Douro, actualmente, bate o Alentejo e o Dão cá dentro e ainda mais lá fora embora no estrangeiro o Dão ser bem capaz de congregar à sua volta mais “opinion makers” do que o Alentejo (novamente, em termos de quantidade a história é outra…).
Ainda para mais, penso que o estilo de vinhos que pouco a pouco começa a ser preferido pelos “opinion makers” e também pelos consumidores, pode ser uma boa oportunidade para o Dão mostrar todas as suas potencialidades e diferença, assim os produtores do Dão se esforcem, cresçam em dimensão e qualidade e porque não em número também.
Um dos problemas do Dão é que continua a haver um número reduzido de produtores apostados na qualidade.
Agora uma pequena provocação. O Dão é considerado a Borgonha portuguesa devido à elegância dos seus vinhos. Tem conhecimento da experimentação da casta Pinot Noir no Dão? Acha que resultaria?
Não conheço qualquer experiência com a Pinot Noir no Dão.
Resultar até podia resultar mas acrescentava alguma coisa aos vinhos do Dão? Acho que não.
Tal como não acho que esta ou outra casta “estrangeira”, introduzida agora por uma questão de moda, viesse acrescentar alguma coisa a esta ou a outras regiões.
Ocasionalmente até podem dar origem a um vinho muito falado cá dentro; mas quando se compara com os vinhos do “terroir” original? Acrescentam alguma coisa? Tenho muitas dúvidas.
Um vinho que levava para uma ilha deserta?
Uma pergunta destas leva muitas vezes a cairmos na imodéstia, a olhar para o nosso umbigo, ou então na “snobeira” dos vinhos “milionários”.Espero fugir às duas escolhendo um Madeira Malvasia 20 Anos ou um Porto Tawny 20 Anos.
publicado por allaboutwine às 09:17 | link do post | comentar