Quinta da Murta / Paraíso às portas de Lisboa



Aproveitei uma tarde em que a chuva deu alguma trégua e combinei com o Hugo Mendes uma visita à Quinta da Murta, em Bucelas. Chegamos a Bucelas, no largo da igreja viramos à direita e seguimas para a serra. Pouco depois encontramos a Quinta da Murta. Ao espreitarmos cá de cima, sentimos logo a beleza estonteante e bucólica da quinta lá em baixo. Um pequeno aglomerado de casas rodeadas de vinha.



Quem diria que a poucos kilometros de Lisboa axistem cenários destes, onde encontramos uma calma única, ficamos em paz e em sintonia com a natureza. Para quem não está habituado, é um silêncio ensurdecedor.




Depois de um momento de reflexão, desperto e centro e minha atenção para o que me trouxe à Murta. As vinhas e os vinhos.


Como não podia deixar de ser, o Arinto domina o encepamento.É aqui o seu reino, onde se sente em casa. É contagioso ver a maneira como Hugo fala da casta, do terroir, de como ela resulta na Murta, o perfil que ele entende que ela deverá ter e também na companhia  de outras castas brancas, como Rabo de Ovelha e Esgana Cão, para complementar com volume e fruta, deficitários no Arinto.


Passámos à adega, à sala de operações onde tudo acontece. As uvas são recebidas e através de gravidade são vinificadas em cubas de inox com temperatura controlada e sempre baixa (a água que corre nas tubagens chega a atingir os 7º negativos.
Battonage em todos os vinhos brancos, para extraír o máximo das películas e acrescentar volume e também no rosé (feito com a Toriga Nacional da casa).
Como o Arinto á apanhado com menos ou com mais grau de maturação, consoante o tipo de vinho a que se destina, também na adega são finificados separadamente. Temos então vinhos base de espumante, mais acídulos e mais neutros de aromas, e as restantes, com mais tempo na vinha, que serão a base dos restantes vinhos. O Quinta da Murta apenas fica pelo inox e o Clássico é fermentado e estagiado em barricas de carvalho francês. Vinhos que têm uma frescura incrível, carácter seco. O Clássico com outra complexidade e estrutura, apto para durar em garrafa. Em relação ao rosé, também este se fica pelo inox. Provado da cuba, mostrou fruta delicada, não muito intensa mas uma grande aptidão gastronómica. Os tintos da casa também têm direito a estágio em barricas de carvalho e também, como é regra, são secos, pouco frutados e sem as flores exuberantes da Touriga Nacional.


Em jeito de conclusão, foi muito didáctico o tempo passado na Quinta da Murta. Percebi melhor o Arinto, as diferentes formas de vinifica-lo. Foi muito interessante provar base de espumante (nunca o tinha feito), as cubas de Arinto de 2009 e as várias experiências da casta em barricas de diferentes capacidades.
Contagiante a paixão que Hugo fala dos seus vinhos e defende o seu perfil seco e austero. Segundo ele, os vinhos são feitos para a mesa e é nela que eles devem resultar bem. Não serão ao gosto de todos, com certeza, passam ao lado de medalhas, com certeza, mas quem respeita e espera por estes vinhos, tem a merecida recompensa.
publicado por allaboutwine às 13:17 | link do post | comentar